Médicos alertam: vitaminas em excesso causam riscos à saúde

Agência O Globo / Estilo de Vida

 

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O uso excessivo de suplementos vitamínicos tem crescido no Brasil, impulsionado pela busca por saúde, bem-estar e resultados estéticos. Paralelamente, médicos alertam para os riscos da automedicação, prática que favorece o uso indiscriminado desses produtos. A tendência preocupa médicos e nutricionistas porque a suplementação sem indicação clínica pode, além de não trazer os benefícios prometidos, representar riscos à saúde.

Entre os profissionais que acompanham esse movimento está o médico Dr. Lucas Moser, que orienta que os pacientes mantenham cautela diante de propagandas que associam vitaminas a melhorias estéticas ou emocionais. “Não existem combinações de vitaminas para melhorar o cabelo, as unhas, a autoestima ou a imunidade. As vitaminas têm funções específicas e limitadas no organismo e, na maioria das vezes, não produzem os efeitos amplamente divulgados em clínicas de estética”.

Com o crescimento da chamada indústria wellness, tem-se criado uma cultura segundo a qual vitaminas são consideradas saudáveis e inofensivas e de que quanto mais vitaminas no corpo, melhor. “Também há a crença de que as vitaminas são as melhores soluções para problemas mais complexos de saúde. Existe uma onda de desinformação que faz as pessoas acreditarem que remédios são vilões e as vitaminas são potenciais alternativas seguras e eficazes quando, na verdade, elas também podem causar malefícios se utilizadas de maneira errada”, enfatiza Dr. Lucas Moser.

Ele alerta ainda sobre a máxima do ‘mal não faz’ e do ‘mais é sempre melhor’, fazendo com que suplementos, vistos como inofensivos, tragam malefícios sérios. Isso se dá especialmente porque, sem acompanhamento profissional, o risco do uso inadequado é maior.

O que é hipervitaminose e quais são seus primeiros sinais

Dr. Lucas Moser explica que a hipervitaminose ocorre quando há excesso de ingestão de vitaminas, especialmente via suplementos vitamínicos tomados sem indicação adequada. “Os sintomas variam conforme a vitamina envolvida, mas há alguns padrões mais bem estabelecidos para as vitaminas A e D. No caso da vitamina A, surgem fadiga, mal-estar, lentidão, dor abdominal, náuseas e alterações na pele; já a vitamina D pode provocar confusão, apatia, vômitos, inchaço, dor abdominal e alterações na urina”, explica.

Embora alimentos e suplementos prometam compensar dietas desequilibradas, a suplementação sem necessidade comprovada pode causar intoxicações graves e até risco à vida, alertam órgãos como o Conselho Federal de Medicina (CFM).

Vitaminas e seus riscos

As vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K) representam maior risco devido à sua capacidade de se acumular no fígado e no tecido adiposo. Mesmo a vitamina E, em altos níveis, pode causar estresse oxidativo e inflamação renal. “O fígado sofre pressão com o metabolismo excessivo, especialmente da vitamina A, elevando o potencial de intoxicação. Nos rins, o excesso de vitamina D pode causar pedras, insuficiência renal aguda silenciosa e até falência funcional. Já altas doses de vitamina E, embora controversas em humanos, são associadas a processos inflamatórios e toxicidade tecidual”, relaciona Dr. Lucas Moser.

O médico segue explicando que, apesar da baixa capacidade de armazenamento do corpo, as vitaminas hidrossolúveis, como C e complexo B também apresentam riscos: podem causar diarreia, náuseas, neuropatia (ex: B6), hepatotoxicidade (ex: Niacina) ou mascarar déficit de B12 (ácido fólico). Ele lembra ainda que, além de causar intoxicação no fígado, quando em excesso, nos rins, vitaminas como a D podem levar ao acúmulo de cálcio no corpo, resultando em pedra nos rins e insuficiência renal aguda, condições que são silenciosas e só apresentam sintomas após instalados.

“Já a vitamina E, em doses elevadas, pode induzir estresse oxidativo e inflamação renal, com elevação de biomarcadores de toxicidade tecidual, embora os dados em humanos ainda sejam controversos quanto à magnitude do risco”, explica o Dr. Lucas Moser. Ele alerta ainda que em pacientes com doença renal crônica, recomenda-se cautela adicional, pois a capacidade de excreção e metabolismo dessas vitaminas está comprometida, aumentando o risco de toxicidade mesmo com doses consideradas seguras em indivíduos saudáveis.

Suplementação: quando é indicada

Segundo o CFM, a prescrição só é justificada quando há deficiência documentada por exames. “Departamentos médicos e órgãos como o próprio CFM criticam o critério de ‘melhor ficar acima’, definindo-o como falho. Seguir referências científicas e diretrizes oficiais — como as da Associação Médica Brasileira (AMB) e Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) — é essencial”, orienta o Dr. Lucas.

“Não há recomendação de suplementação para a população em geral. Apenas se a pessoa tiver alguma deficiência vitamínica comprovada em exames laboratoriais. Muitos profissionais têm se valido dessa onda para vender suplementos injetáveis com a justificativa de que os níveis usados como referência nos exames estão desatualizados. Isso é uma grande mentira. As maiores sociedades científicas do mundo acompanham as mudanças nutricionais e alteram as recomendações de tempos em tempos”, reforça o médico.

Prevenção e orientação profissional

De acordo com especialistas da Columbia University Irving Medical Center, a maioria das pessoas saudáveis que mantém uma dieta equilibrada já recebe as quantidades necessárias de vitaminas. Nesses casos, a suplementação não é considerada essencial, a menos que indicada por avaliação clínica. A instituição também destaca que não há evidências científicas de que a reposição indiscriminada de diversas vitaminas traga benefícios adicionais à saúde.

“Um bom profissional vai guiar-se sempre por referências científicas e de sociedades ou órgãos independentes, como US Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora americana, ANVISA, Sociedades Brasileiras de especialidades, como EndocrinologiaCardiologiaNefrologia. Desconfie de profissionais que não dão motivos para a suplementação, como, por exemplo, ‘mesmo estando normal, para mim ainda está baixo’ ou ‘eu deixo sempre mais alto’. Um bom profissional usa estudos como referência, e não achismo próprio”, enfatiza o Dr. Lucas Moser.

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